As mulheres são as principais vítimas da dor de cabeça, que muitas vezes nos pega de tal forma que fica até difícil sair da cama, trabalhar... Entenda por que ele acontece e saiba como contorná-lo


Reportagem: Ivonete Lucirio

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Dores de cabeça podem ser provocadas por estresse, exercícios e até excesso de remédios
Foto: Danilo Borges

O sofrimento com a dor de cabeça não é um mal recente, culpa apenas do estresse a que estamos expostas. Há histórias de pessoas que sofriam com esse problema que datam 7 mil anos antes de Cristo. Nessa época, a cefaleia era tratada com trepanação — buracos feitos no crânio para que os demônios que causam a dor pudessem sair.

Hoje, embora as formas de tratamento sejam menos agressivas, a cefaleia ainda é o inferno de muita gente. “Mais de 90% das pessoas terão ao menos um episódio de dor de cabeça durante a vida, e 6% da população sofre com dores diariamente”, pontua Thais Rodrigues Villa, neurologista membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SP). De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cefaleia do tipo tensional, uma das mais comuns, afeta dois terços dos homens adultos e mais de 80% das mulheres. Pois é, nós, do sexo feminino, sofremos mais, segundo os especialistas, devido às variações hormonais. Ainda segundo a OMS, são 21 milhões de ataques de dor de cabeça por dia. Haja sofrimentos!

Desordem ao redor do cérebro:

Os cientistas não sabem exatamente o que acontece dentro da cabeça quando ela começa a doer. Mas as pesquisas mostram que a dor, no geral, está associada a uma dilatação das artérias que ficam ao redor do cérebro. Qualquer pessoa está sujeita a esse fenômeno, só depende de um gatilho para dispará-lo. Para algumas, pode ser a alimentação; para outras, o estresse. “Para outras são odores fortes, como perfumes, gasolina e éter, ou exposição à luz intensa”, exemplifica Célia Roesler, neurologista da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SP). Ou ainda variações bruscas de temperatura, que interferem no funcionamento dos vasos que irrigam a região. Não existe uma cura definitiva para a dor de cabeça, mas é possível reduzir a quase zero os episódios descobrindo quais são os fatores desencadeantes e evitando-os. O chocolate é um exemplo. Não faz mal para todo mundo, mas algumas pessoas apresentam uma sensibilidade maior às aminas, substância presente na semente do cacau. Aí, basta comer para sentir o incômodo.

Medicação:

A principal tentação quando a dor surge é tomar um analgésico. E isso, no geral, é uma boa solução. Um comprimido de venda livre, tomado uma ou duas vezes por mês, não faz mal. No entanto, se isso se tornar um hábito, pode gerar o chamado efeito rebote. É que ao tomarmos um medicamento, ele se liga a receptores no organismo e provoca a diminuição do sintoma. Com o tempo, esses receptores ficam menos sensíveis e é necessária uma dose maior para que o alívio aconteça. E assim vai, até que, mesmo tomando uma dose alta a dor não passa e pode até ficar pior. Um estudo publicado no British Medical Journal, do Reino Unido, mostrou que a ingestão de analgésico por 15 dias em um mês já é suficiente para disparar o efeito rebote. Em um mercado que vendeu 120 milhões de embalagens de analgésico em 2009, é provável que tenha muita gente se automedicando e colocando a saúde em risco. Uma dorzinha esporádica depois de ficar presa no trânsito ou brigar com o chefe é normal... Mas se o quadro tornar-se repetitivo, mais de dois episódios por mês, é melhor procurar um médico, identificar a causa e se cuidar para atingir de verdade o mal.

Os olhos e a mandíbula:

O primeiro é quase inocente e a segunda, culpada. Existe a crença de que a falta de óculos ou lentes fracas provocam dor de cabeça. Isso pode acontecer somente quando a pessoa sofre de astigmatismo, quando a córnea é irregular. A dor que surge nesses casos se assemelha a um peso na fronte. Mas a falta de óculos nunca provoca dores muito fortes, acompanhadas por náusea. E o incômodo desaparece depois de alguns minutos com os olhos fechados. Já a mandíbula, essa sim pode provocar dores de cabeça bastante fortes. Existe um distúrbio chamado disfunção tempo romandibular. Ele acontece quando o disco de cartilagem, que fica entre os ossos do crânio e da mandíbula, sofre alguma lesão, que pode ser causada por fatores simples, como ranger os dentes ou mascar muito chiclete, ou por traumas mais graves. Quando há alguma coisa errada com essa cartilagem, há atrito entre os ossos, o que provoca bastante dor.

A dor do exercício:

Basta seu coração bater mais rápido, por conta da atividade física, para parecer que há uma bomba em sua cabeça? “Esse tipo é mais comum em pessoas com enxaqueca e naquelas que ainda não têm condicionamento físico”, explica Thais Villa. O exercício causa um aumento no fluxo sanguíneo, inclusive nos vasos que rodeiam o cérebro. Isso pode provocar dor. Já para quem está em forma, o efeito do exercício é positivo. Foi isso que mostrou um estudo feito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Depois de avaliar 3.848 pessoas, constatou-se que os sedentários têm 43% mais enxaqueca e 100% mais cefaleia crônica. Isso porque os exercícios induzem a produção de endorfinas, analgésicos naturais.